Sistemas biométricos, identidade digital e inteligência artificial estão transformando aeroportos e fronteiras, mas viajantes ainda precisam se preparar para novas etapas.
Viajar para o exterior está ficando cada vez mais digital, e uma das principais mudanças já pode ser percebida nas fronteiras europeias. O novo sistema de entrada e saída da União Europeia, conhecido como EES, passou a exigir o registro de dados biométricos de viajantes de países de fora do bloco, substituindo gradualmente os tradicionais carimbos no passaporte. A tecnologia foi criada para aumentar a segurança e automatizar o controle migratório, mas a implementação também tem provocado filas, dúvidas e diferenças de procedimento entre aeroportos.
O movimento não está restrito à Europa. Companhias aéreas, aeroportos e governos vêm testando sistemas capazes de combinar identidade digital, reconhecimento facial e autorizações eletrônicas para reduzir a necessidade de apresentar documentos repetidamente durante uma viagem. Em abril, a IATA informou que testes realizados em diferentes regiões demonstraram que uma jornada internacional praticamente sem contato físico e baseada em identidade biométrica já é tecnicamente possível.
Para quem pretende viajar nos próximos meses, a principal dúvida é o que essa transformação significa na prática. A tendência é que o passageiro precise cada vez mais preparar sua documentação e sua identidade digital antes de chegar ao aeroporto, ao mesmo tempo em que deverá reservar margem de tempo para sistemas que ainda estão em fase de adaptação.
Por que a biometria está mudando a experiência de quem viaja ao exterior?
A biometria utiliza características físicas, como o rosto ou as impressões digitais, para confirmar que uma pessoa é realmente quem afirma ser. No setor aéreo, a tecnologia pode ser usada em diferentes momentos, incluindo controle migratório, embarque e acesso a determinadas áreas do aeroporto. A proposta é substituir verificações repetitivas de documentos por uma identificação automatizada, permitindo que o passageiro passe por diferentes etapas de uma viagem com menos interrupções. A IATA afirma que sua iniciativa One ID busca justamente permitir que o viajante compartilhe informações de identidade antecipadamente e utilize a biometria nos pontos de contato do aeroporto.
Na Europa, entretanto, a experiência mostra que digitalizar uma fronteira não significa necessariamente eliminar filas imediatamente. O EES registra informações de viajantes de fora da União Europeia e utiliza dados biométricos para reforçar a identificação e combater fraudes, mas a implantação provocou dificuldades operacionais em alguns locais. Relatos recentes apontam que aeroportos como Frankfurt, Munique e Amsterdã enfrentaram aumento no tempo de espera durante a temporada de viagens, justamente enquanto passageiros e funcionários se adaptam aos novos procedimentos.
Isso cria uma situação importante para brasileiros: a tecnologia pode tornar a entrada em outros países mais rápida no futuro, mas durante períodos de transição o efeito pode ser exatamente o contrário. Quem tiver conexão aérea, trem internacional ou outro compromisso logo após o controle migratório deve considerar uma margem de segurança maior. A experiência também pode variar de acordo com o aeroporto, o país de entrada e o nível de integração dos equipamentos disponíveis, tornando arriscado presumir que todos os terminais funcionarão da mesma maneira.
O que muda para brasileiros que planejam viagens internacionais?
A transformação digital significa que o planejamento da viagem começa antes de fazer as malas. Além de verificar validade do passaporte, regras de entrada, seguro e eventuais autorizações eletrônicas, o viajante precisa acompanhar como o destino utiliza sistemas digitais de imigração. No caso europeu, também é importante entender que o EES não deve ser confundido com o ETIAS, que é uma autorização de viagem diferente e possui calendário próprio. Informações recentes sobre o sistema europeu mostram que aplicativos e procedimentos digitais ainda apresentam limitações e não substituem todas as etapas presenciais.
Outro avanço relevante ocorreu na África do Sul, que lançou em agosto um sistema digital de autorização de viagem para determinados viajantes. A iniciativa faz parte de uma modernização dos processos migratórios e combina autorização eletrônica com mecanismos biométricos, embora a integração completa entre diferentes sistemas aeroportuários ainda esteja em desenvolvimento. O caso mostra como governos de diferentes regiões estão tentando transformar a imigração em um processo mais digital, com etapas que podem ser realizadas antes da chegada ao aeroporto.
Para o turista, a consequência prática é uma mudança no conceito de check-in. Em vez de pensar apenas no cartão de embarque, será cada vez mais necessário verificar se a identidade digital, a autorização de entrada e os dados exigidos pelo país de destino estão corretamente preparados. Isso pode reduzir burocracias no futuro, mas também aumenta a importância de conferir informações oficiais antes da viagem, especialmente quando houver conexão internacional ou entrada em diferentes países.
Inteligência artificial deve ampliar a automação nos aeroportos
A biometria é apenas uma parte de uma transformação tecnológica mais ampla. A inteligência artificial também vem sendo incorporada à infraestrutura da aviação para analisar dados, apoiar operações aeroportuárias, melhorar fluxos de passageiros e automatizar processos que antes dependiam exclusivamente de equipes humanas. A evolução é importante porque o crescimento do número de viajantes pressiona aeroportos e companhias aéreas a movimentarem mais pessoas sem ampliar a burocracia na mesma proporção. A própria IATA projeta que o tráfego global de passageiros poderá chegar a 8,1 bilhões por ano até 2044, aproximadamente o dobro do nível de 2024.
O cenário aponta para aeroportos nos quais o passageiro poderá realizar mais etapas pelo celular e utilizar o rosto como principal credencial em determinados pontos da jornada. Isso pode beneficiar especialmente quem viaja com frequência, reduzindo a necessidade de apresentar documentos várias vezes e tornando conexões internacionais potencialmente mais simples. Ao mesmo tempo, a dependência de tecnologia cria novos desafios, como privacidade, proteção de dados, falhas de reconhecimento e necessidade de alternativas para passageiros que não consigam utilizar sistemas automatizados.
No Brasil, a modernização tecnológica dos aeroportos também faz parte das diretrizes regulatórias. A ANAC estabeleceu como diretriz a adoção de soluções tecnológicas capazes de elevar a segurança, ampliar a capacidade aeroportuária e melhorar a experiência dos passageiros. O próximo passo tende a ser uma maior integração entre companhias aéreas, aeroportos, governos e plataformas digitais, mas essa evolução dependerá de padrões compatíveis entre países e de regras claras para o uso das informações pessoais.
Para quem pretende viajar internacionalmente, portanto, a tendência mais importante não é simplesmente o fim do passaporte físico, mas a combinação entre documento tradicional, identidade digital, biometria e sistemas automatizados. A IATA já demonstrou, em testes internacionais, que diferentes carteiras digitais e sistemas nacionais podem trabalhar de maneira interoperável em uma mesma jornada. Nos próximos anos, essa integração poderá transformar a passagem pelo aeroporto em uma experiência mais fluida, desde que os governos consigam ampliar a adoção sem comprometer segurança, privacidade e acessibilidade.
O viajante deve acompanhar essa evolução com atenção, principalmente porque a tecnologia será incorporada de maneira desigual entre destinos. Alguns aeroportos poderão oferecer processos quase totalmente automatizados, enquanto outros ainda dependerão de documentos físicos e atendimento presencial. Para as próximas viagens, a estratégia mais segura é considerar a tecnologia como uma ferramenta adicional, e não como substituta imediata de passaporte, comprovantes e demais documentos exigidos pelo país de destino. Assim, a digitalização pode representar menos filas e burocracia no futuro sem transformar uma falha tecnológica em um problema durante a viagem.
Fontes:
- Time — EES e sistema biométrico de entrada na Europa
- Financial Times — Filas nos controles de fronteira da UE após o EES
- IATA — One ID e identidade biométrica para viagens
- IATA — Testes comprovam viabilidade de viagens sem contato
- Ministério de Portos e Aeroportos — Política Nacional de Biometria
- ANAC — Diretrizes para modernização tecnológica dos aeroportos
- Ministério de Portos e Aeroportos — Embarque biométrico em terminais brasileiros
