Inteligência artificial começa a mudar a forma de planejar viagens — e viajante já sente os efeitos

Hiro Kisaragi
Hiro Kisaragi 8 Visualizações 11 Min de leitura

Novas ferramentas de IA estão deixando de apenas sugerir destinos e passam a ajudar turistas a comparar opções, encontrar voos e tomar decisões durante a viagem.

A inteligência artificial está deixando de ser apenas uma ferramenta para responder perguntas e começa a ocupar um espaço cada vez maior no planejamento de viagens. Nos últimos dias, novos dados e iniciativas do setor mostram que viajantes já utilizam IA para pesquisar hotéis, comparar destinos, encontrar atividades e até receber recomendações em tempo real durante uma viagem. O movimento é importante porque muda uma etapa tradicional do turismo: a maneira como o passageiro descobre para onde ir e decide o que comprar.

A mudança também ganha força entre empresas de tecnologia turística. Em 2 de setembro, o Skyscanner apresentou sua visão sobre a evolução da IA no setor e destacou o avanço de ferramentas que permitem ao viajante explicar, em linguagem natural, que tipo de viagem deseja fazer, sem necessariamente começar escolhendo destino e datas. A empresa informou que seu recurso experimental Explore with AI já levou cerca de 61% dos usuários que o utilizaram a visualizar opções de voos.

Para quem pretende viajar nos próximos meses, isso significa que a tecnologia pode reduzir parte do trabalho de pesquisa, especialmente quando o turista ainda não sabe exatamente para onde quer ir. Ao mesmo tempo, a expansão da IA cria uma nova preocupação: respostas aparentemente convincentes podem não ser suficientes para tomar decisões que envolvem dinheiro, documentos, horários e reservas. Por isso, entender como essas ferramentas estão evoluindo é tão importante quanto saber aproveitá-las.

Como a inteligência artificial está mudando a pesquisa de destinos e passagens

Uma das principais mudanças está acontecendo antes mesmo da compra da passagem. Em vez de pesquisar apenas termos objetivos como “voos para Paris” ou “hotéis em Lisboa”, o viajante pode descrever uma intenção mais ampla, como procurar uma viagem curta, econômica, adequada para determinada época do ano ou combinada com determinadas atividades. A IA consegue interpretar esse tipo de pedido e transformar a descrição em possibilidades de destinos, hospedagens, passeios e voos.

Esse modelo atende especialmente quem está indeciso. Segundo o Skyscanner, aproximadamente metade dos viajantes chega à plataforma sem ter decidido completamente onde ou quando viajar, o que abre espaço para ferramentas capazes de transformar inspiração em opções concretas. A pesquisa da Phocuswright também mostra que a IA já está sendo usada em diferentes momentos da jornada, com destaque para pesquisa de hotéis, atividades, comparação de destinos e voos.

Na prática, isso pode tornar o planejamento mais eficiente, mas não significa que o turista deva aceitar automaticamente a primeira sugestão apresentada. Preços de passagens mudam rapidamente, hotéis podem alterar disponibilidade e políticas de cancelamento, enquanto atrações podem funcionar com horários diferentes em feriados ou períodos de alta temporada. A IA pode servir como ponto de partida para organizar possibilidades, mas a confirmação diretamente com companhias aéreas, hotéis, aeroportos e órgãos oficiais continua sendo uma etapa importante antes de pagar.

Outro avanço relevante é a utilização da tecnologia durante a própria viagem. Dados divulgados pela Phocuswright indicam que recomendações em tempo real são o principal uso da IA entre viajantes pesquisados no Reino Unido, França e Alemanha, superando tarefas relacionadas à gestão operacional da viagem. Isso mostra que o turista está começando a enxergar a inteligência artificial não apenas como planejadora, mas como uma espécie de assistente para descobrir restaurantes, atrações e atividades enquanto já está no destino.

De aeroportos inteligentes a fronteiras digitais: tecnologia também muda o embarque

A transformação tecnológica não está restrita ao planejamento. Aeroportos também avançam na adoção de biometria, autoatendimento e sistemas digitais para tornar etapas como identificação, segurança e embarque mais rápidas. O governo brasileiro destaca que tecnologias como reconhecimento facial e totens de atendimento já fazem parte da modernização de diferentes terminais nacionais, reduzindo a necessidade de apresentar repetidamente documentos e cartões de embarque.

No cenário internacional, a digitalização das fronteiras também está ganhando importância. O Sistema de Entrada/Saída da União Europeia, conhecido como EES, registra dados de entrada e saída de cidadãos de países de fora da União Europeia que fazem viagens curtas pelo espaço Schengen, incluindo informações do documento, imagem facial e impressões digitais. O sistema está operacional nos pontos externos do espaço Schengen desde abril de 2026 e substitui gradualmente a antiga lógica de carimbos físicos por registros digitais.

Para brasileiros que pretendem viajar pela Europa, a mudança representa uma diferença prática no momento da chegada. O passageiro deve estar preparado para procedimentos de identificação biométrica e para possíveis diferenças no tempo de atendimento entre aeroportos, principalmente enquanto os sistemas e os fluxos operacionais continuam sendo ajustados. A União Europeia informa ainda que determinadas categorias, como pessoas com autorização de residência ou visto de longa duração em determinadas condições, podem estar fora do registro do EES.

A tendência é que essa integração entre identidade digital, biometria e sistemas de fronteira avance nos próximos anos. A IATA trabalha com o conceito One ID, no qual documentos e informações de viagem podem ser compartilhados digitalmente, mediante consentimento, permitindo que o passageiro passe por diferentes pontos do aeroporto usando identificação biométrica. A proposta busca conectar companhias aéreas, aeroportos e governos em uma jornada mais fluida, embora a implementação dependa de padrões compatíveis, infraestrutura e regras de proteção de dados.

O que o viajante ganha — e quais cuidados continuam necessários

O principal benefício da inteligência artificial para quem viaja é a possibilidade de reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas. Uma pessoa pode reunir preferências, orçamento, duração da viagem e interesses em uma única solicitação e receber alternativas para comparar, enquanto ferramentas de viagem começam a conectar pesquisa, preços e recomendações de maneira mais integrada. O avanço é particularmente interessante para viagens internacionais, nas quais o volume de informações sobre transporte, hospedagem, documentação e atrações costuma ser maior.

Por outro lado, a expansão da IA também aumenta a responsabilidade do viajante em verificar informações importantes. A própria evolução do setor aponta para uma transição de sistemas que simplesmente apresentam resultados para ferramentas capazes de interpretar opções e, futuramente, executar ações em nome do usuário. Especialistas do setor destacam que essa etapa exige dados confiáveis e atualizados, especialmente quando estão envolvidos pagamentos, reservas e outras decisões com consequências financeiras.

Esse cuidado é ainda mais importante em assuntos como vistos, vacinas, validade de passaporte, regras de entrada, franquia de bagagem e condições de tarifas aéreas. Uma resposta produzida por IA pode ajudar a identificar o que precisa ser pesquisado, mas a confirmação deve ser feita nas fontes responsáveis pela regra, como governos, consulados, companhias aéreas e autoridades aeroportuárias. Para requisitos de documentação internacional, por exemplo, a IATA mantém o Travel Centre com informações personalizadas de passaporte, visto e exigências sanitárias baseadas no itinerário do passageiro.

O cenário também abre oportunidades para destinos turísticos e empresas do setor. Hotéis, companhias aéreas, plataformas de reservas e órgãos de promoção turística terão de adaptar suas informações para um ambiente no qual o viajante pode descobrir uma marca por meio de uma resposta gerada por IA, em vez de acessar diretamente um site tradicional. Ao mesmo tempo, experiências digitais mais personalizadas podem ajudar destinos menos conhecidos a aparecer para pessoas que ainda não escolheram onde viajar.

Nos próximos meses, a tendência mais importante será justamente essa passagem da IA como ferramenta de pesquisa para uma tecnologia capaz de auxiliar decisões e executar tarefas com autorização do viajante. O Skyscanner descreve essa evolução como uma trajetória que vai da busca para respostas e, posteriormente, para ações, enquanto pesquisas recentes mostram que a influência da IA nas decisões de viagem já é significativa entre usuários europeus.

Para o turista, isso pode significar viagens mais personalizadas, planejamento mais rápido e menos etapas manuais. Porém, a conveniência não elimina a necessidade de conferir preços, documentos, horários e condições diretamente com os fornecedores. A próxima fase do turismo digital deverá combinar inteligência artificial, identidade biométrica, aplicativos e dados em tempo real, tornando a experiência mais integrada — mas também fazendo da qualidade da informação um dos principais fatores para uma viagem realmente segura e eficiente.

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